quarta-feira, 11 de maio de 2011

Na Era do jogador certinho, lembranças do grande Eric Cantona

Transcrevo aqui a ótima coluna de Mauro Cezar Pereira, comentarista da ESPN, sobre o mítico Eric Cantona.

O que Ronaldinho e Messi têm, ou tiveram, em comum, além da camisa do Barcelona, futebol exuberante e as eleições de melhor do mundo por eles vencidas? Ambos falam sempre as mesmas previsíveis frases, jamais surpreendem, nunca provocam a menor reflexão, sempre assépticos, frios, politicamente corretos, robozinhos de entrevistas. Um saco.

Em nossa recente viagem à Alemanha e Inglaterra para cobrir jogos da Champions e Premier League para os canais ESPN, aproveitei, como sempre, para comprar camisas de futebol. E uma delas vestirei com orgulho. Foi adquirida na correria do jogo Manchester United x Schalke 04, numa barraquinha nas imediações de Old Trafford. Com a ajuda do amigo Pedro Tatoo, nosso editor e boleiro até a medula, pude colocá-la na coleção.

Não, ela não é uma camisa oficial daquelas com nome e número às costas, tampouco tem o patch da Uefa Champions League, Bundesliga ou Barclays Premier League nas mangas. E custou apenas 7 libras. Trata-se de uma camiseta com a reprodução da foto de um ex-jogador à frente e seu nome e número às costas. Escrito assim: 7 CAN7ONA.



Isso mesmo, com o número 7 no lugar da letra T. Eric Cantona era a antítese dos jogadores certinhos das entrevistas da "Era" do politicamente correto. Foi autêntico o tempo todo, gostassem dele, ou não. Maluco até, sem dúvida. Irrascível, claro. Violento, sim, ele era.

Mas antes de tudo, um ídolo, o tipo de cara que entrava em campo e em suas veias o sangue corria como nas do torcedor. Paixão à flor da pele, amor à camisa, o futebol jogado não apenas com raça, mas com alma. Era impossível um fã do time que defendia não se apaixonar por seu futebol.

Trocou o Leeds (que levou ao título inglês) pelo Manchester United e brilhou intensamente sob o comando de Alex Ferguson. Tanto que na sala de imprensa de Old Trafford há uma placa com sua foto e uma frase na qual o manager e "Sir" agradece ao francês pelos cinco anos "maravilhosos" que ele proporcionou ao United. Não é pouco, senhoras e senhores.

Cantona era brilhante, não só pelo futebol, mas pelas atitudes. Doidaço a ponto de dar uma voadora no torcedor Matthew Simmons em 1995, irritado com as ofensas disparadas pelo fã do Crystal Palace. Acertou o cara em cheio, em plena arquibancada. Pegou nove meses de gancho. Parou cedo e não foi campeão do mundo com a França em 1998. Mas não fosse assim não seria Cantona.

Foi a partir de sua chegada a Old Trafford que o Manchester United reencontrou o caminho das conquistas. Sábado deverá se tornar no maior vencedor do campeonato inglês em todos os tempos, superando o rival, Liverpool, 19 a 18 títulos. Num momento em que o clube chega ao ápice, às vésperas de mais uma final europeia, lembrar Cantona é imperativo.

No cinema, ele empresta o nome e manda muito bem em "À Procura de Eric". Neste bom filme, dispara a frase célebre que ilustra minha camiseta: "I'm not a man. I'm Cantona". O futebol precisa de mais caras como ele, que inspirou gritos como "Ooh Aah Cantona" e "Eric, the King".

A famosa voadora que Cantona desferiu no torcedor do Crystal Palace




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